As funções da linguagem

A linguagem sempre varia de acordo com a situação, assumindo funções que levam em consideração o que se quer transmitir e que efeitos se espera obter com o que se transmite.

Ao analisar qualquer texto, qualquer imagem, pode-se perceber que suas linguagens funcionam para atingir um objetivo. Não há comunicação neutra. Há sempre um contexto, uma necessidade, uma situação pessoal determinando o que se diz, por intermédio de um discurso que pode ser informativo, autoritário, apelativo ou poético.

Deste modo, pode-se falar em funções da linguagem. Analisar as funções da linguagem nos textos alheios ajuda-nos a descobrir os objetivos que direcionaram sua elaboração. Aplicá-las aos nossos ajuda-nos a planejar melhor sua comunicabilidade e eficiência.

As funções da linguagem organizam-se em torno de um emissor (quem fala), que envia uma mensagem (referente) a um receptor (quem recebe), usando um código, que flui através de um canal (suporte físico). As funções da linguagem são as seguintes:

ü Referencial ou denotativa: seu objetivo é traduzir a realidade (referente), informando com máximo de clareza possível. Nos textos científicos e em alguns jornalísticos predomina essa função.

Em 1665¸ Londres é assolada pela peste negra (peste bubônica) que dizimou grande parte de sua população, provocando a quase total paralisação da cidade e acarretando o fechamento de repartições públicas, colégios etc. Como conseqüências desta catástrofe, Newton retornou a sua cidade natal, refugiando-se na tranqüila fazenda de sua família, onde permaneceu durante dezoito meses, até que os males da peste fossem afastados, permitindo seu regresso a Cambridge.

Este período passado no ambiente sereno e calmo do campo foi, segundo as palavras do próprio Newton, o mais importante de sua vida. Entregando-se totalmente ao estudo e à meditação, quando tinha apenas 23 a 24 anos de idade, ele conseguiu, nesta época, realizar muitas descobertas, desenvolvendo as bases de praticamente toda a sua obra.

(Antônio Máximo e Beatriz Alvarenga. In. Curso de Física. São Paulo: Harbra, 1992. v. 1, p. 196.)

ü Emotiva ou expressiva: o objetivo é expressar emoções, sentimentos, estados de espíritos. O que importa é o emissor, daí o registro em primeira pessoa.

Estou tendo agora uma vertigem. Tenho um pouco de medo. A que me levará minha liberdade? O que é isto que estou te escrevendo? Isto me deixa solitária.

(Clarrice Lispector)

ü Conativa ou apelativa: o objetivo é convencer o receptor a ter determinado comportamento, através de uma ordem, uma invocação, uma exortação, uma súplica, etc. Os anúncios publicitários abusam dessa linguagem. Os discursos autoritários também.

O arauto proclamou:

Meu estimado povo. Que as bênçãos de Deus, senhor todo-onipotente, desçam sobre vocês. Visando combater os gastos desnecessários e luxo. Visando dar igualdade geral ao país, com objetivo de eliminar invejas, rancores, entre irmãos, o Governo, em acordo com as fábricas de calçados, determinou que a partir deste momento será fabricado para toda a nação um só tipo de sapato, masculino e feminino. Fechado, liso e encontrável apenas na discreta e tão bonita cor preta. (Ignácio de Loylola Brandão)

ü Fática: o objetivo é apenas estabelecer, manter ou prolongar o contato (através do canal) com o receptor: As expressões usadas nos cumprimentos, ao telefone e em outras situações apresentam este tipo de função.

— Como vai, Maria?

— Vou bem. E você?

— Você vai bem, Maria?

— Já disse que sim!

— Eu também. Está tão bonita!”

— Ah, bem, é que eu…

— Ah, é.

(Dalton Trevisan)

ü Metalingüística: o objetivo é o uso do código para explicar o próprio código. A língua, por exemplo, é um código; os sinais de trânsito são outro. O livro didático de Língua Portuguesa analisa mecanismos da linguagem usando a própria linguagem. É o que acontece com textos que interpretam outros textos, com dicionários, com poemas que falam da poesia, etc.

ü Poética: o objetivo é dar ênfase à elaboração da mensagem. O emissor constrói seu texto de maneira especial, realizando um trabalho de seleção e combinação de palavras, de idéias ou de imagens, de sons e/ ou de ritmos. Explora-se bastante a conotação.

Não sinto o espaço que encerro

Nem as linhas que projeto

Se me olho a um espelho, erro —

Não me acho no que projeto

(Mário de Sá-Carneiro)


As funções da linguagem não existem isoladas em cada texto. Embora uma delas acabe predominando, elas convivem, mesclam-se, entrecruzam-se o tempo todo, obtendo-se de suas combinações os mais diferentes efeitos. No último exemplo, temos a combinação das funções poética e emotiva. Numa propaganda, por exemplo, combinam-se a função referencial (nas informações sobre o produto), a fática (texto, disposição na página, ilustrações, etc) e conativa (nos elementos de persuasão: “não dá pra não anunciar”).